Plasticidade Cerebral e Aprendizagem: o livro que mudou a forma como conduzo minhas intervenções
Existem livros técnicos que você lê, aprende, arquiva na estante e segue em frente. E existem livros que mudam, de fato, o jeito como você trabalha no dia a dia do consultório. Plasticidade Cerebral e Aprendizagem, organizado por Newra Tellechea Rotta, César Augusto Bridi Filho e Fabiane Romano de Souza Bridi, é dessa segunda categoria para mim.
Foi um dos livros que estudamos no Clube do Livro da Plataforma Mais Psicopedagogia, e posso dizer, sem exagero, que ele enriqueceu profundamente a minha prática clínica. Foi a partir da leitura de um dos capítulos, inclusive, que passei a incorporar a estratégia das maquetes na intervenção, algo que trouxe resultados muito ricos com meus pacientes
Sobre o livro
Publicado pela Artmed em 2018, o livro reúne 18 capítulos escritos por um seleto grupo de profissionais de renome, unindo neurologia, pediatria, psicopedagogia, fonoaudiologia, psicomotricidade e musicoterapia num só volume. São mais de 330 páginas dedicadas a entender o cérebro como órgão plástico, adaptável e responsivo aos estímulos externos, e a traduzir esse entendimento em intervenções terapêuticas concretas.
O que diferencia essa obra de tantas outras leituras técnicas da nossa área é justamente o formato: cada capítulo combina embasamento teórico sólido, com artigos científicos atuais como base, com discussões práticas de como lidar com cada tema no consultório. E, na maioria dos capítulos, há estudos de caso reais, que ilustram a teoria em ação, com riqueza de detalhes que só a prática clínica documentada pode oferecer.
Para quem, como eu, valoriza profundidade e aplicação prática acima de fórmulas prontas, esse formato é ouro puro.
Os temas que atravessam o livro
A abrangência de temas é um dos grandes méritos da obra. Ao longo dos capítulos, encontramos discussões sobre:
A importância das intervenções terapêuticas sobre o desenvolvimento sináptico, logo no capítulo inicial. A atuação do pediatra na triagem e abordagem precoce dos desvios do desenvolvimento. O papel fundamental da família como parte da equipe terapêutica, desde o diagnóstico até a intervenção precoce em casos de transtorno do espectro autista.
Também há capítulos dedicados ao reflexo dos problemas de sono nos transtornos neurológicos e psicológicos, às funções executivas e sua importância no desempenho acadêmico, e ao uso da tecnologia como ferramenta de auxílio na aprendizagem, tema especialmente relevante para quem atende crianças e adolescentes hoje.
A obra segue com uma revisão robusta sobre abordagem do TEA baseada em evidências, um capítulo dedicado à aprendizagem da matemática (seus transtornos e formas de abordagem), e outro sobre leitura, sua ontogenia e repercussões clínicas como a dislexia. Há ainda um capítulo rico sobre a relação entre aspectos psicomotores, neuroplasticidade e aprendizado, incluindo o protocolo PediaSuit aplicado a pacientes com problemas escolares.
Temas mais sensíveis também ganham espaço: as consequências do abuso e da negligência na infância, as relações entre emoções e dispraxias numa abordagem psicopedagógica, a interface entre fonoaudiologia e musicoterapia no contexto de linguagem e comportamento. E o livro se encerra com capítulos sobre memória, aprendizado e epilepsia, o impacto de falhas auditivas sobre o aprendizado, habilidades musicais em crianças com TEA, mutismo seletivo, e um capítulo final dedicado inteiramente às possíveis intervenções terapêuticas relacionadas ao processo de aprendizagem e seus transtornos.
O que mais enriquece a prática: os estudos de caso
Se tivesse que apontar um único diferencial dessa obra, seria a presença constante de estudos de caso reais em praticamente todos os capítulos. Não é só teoria explicada de forma abstrata: é teoria demonstrada em situações clínicas concretas, com nome fictício de paciente, contexto, processo terapêutico documentado etapa por etapa, e reflexão sobre os resultados.
Isso muda completamente a forma como a leitura se converte em prática. Ler sobre um conceito teórico é uma coisa. Ver esse conceito sendo aplicado, com todos os ajustes e nuances que a clínica real exige, é outra completamente diferente, e muito mais valiosa para quem está no consultório todos os dias.
A estratégia das maquetes: de onde nasceu uma mudança real na minha prática
Quero compartilhar com mais detalhe um exemplo específico, porque foi ele que mais impactou diretamente o meu trabalho.
No primeiro capítulo do livro, dedicado às intervenções terapêuticas que promovem o desenvolvimento sináptico, é apresentado o caso clínico de um menino chamado Sérgio (nome fictício, como é padrão em publicações científicas para preservar a identidade do paciente). Sérgio tinha um histórico de baixa produção escolar, atrasos constantes e dificuldade recorrente em concluir tarefas.
A partir do interesse genuíno do paciente, a intervenção evoluiu para o uso da técnica da construtividade, referenciada no livro a partir dos estudos de Leonhardt: a construção de maquetes como ferramenta terapêutica e de aprendizagem. O processo envolve etapas bem estruturadas: pensar numa ideia, enriquecê-la por meio de associações, listar personagens e elementos da paisagem natural e cultural, desenhar um croqui do tema selecionado, e então construir a ideia com materiais fragmentários sobre uma base física, cujo tamanho é determinado pelo próprio paciente.
Ao longo de um ano e meio, Sérgio construiu três maquetes distintas, cada uma representando um tempo diferente de um mesmo processo criativo: uma praia deserta, um tesouro, uma casa feliz. O tempo de confecção de cada maquete variou, respeitando as necessidades criativas, terapêuticas e de desenvolvimento daquele momento específico do tratamento.
O que essa técnica trabalha vai muito além da coordenação motora fina envolvida na construção física. Ao construir, o paciente mobiliza memória de trabalho (para executar cada etapa) e memória de médio e longo prazo (para retomar elementos pendentes de uma sessão para outra). Mobiliza também habilidades de classificação, planejamento, flexibilidade de pensamento (ao revisar e ajustar o projeto inicial durante a execução), e, especialmente, investimento afetivo genuíno, o que sustenta o engajamento ao longo de um processo terapêutico prolongado.
Foi a partir dessa leitura que passei a incorporar a estratégia das maquetes nas minhas próprias intervenções. E o resultado tem sido muito rico: é uma ferramenta que permite trabalhar, de forma integrada e significativa, múltiplas funções cognitivas e emocionais ao mesmo tempo, a partir de um projeto que o próprio paciente ajuda a construir e do qual genuinamente se orgulha.
A mesma técnica aparece de novo, sob outra lente: funções executivas
Um detalhe que achei especialmente rico na obra é que a técnica da maquete não aparece só uma vez. Ela reaparece, mais adiante, no capítulo dedicado ao treinamento das funções executivas e à neuroplasticidade cognitiva, dessa vez sob uma lente teórica diferente.
Esse capítulo se apoia num artigo de revisão de Karbach e Unger, e detalha as três funções nucleares consideradas a base das funções executivas: o controle inibitório (a capacidade de focar e manter atenção, selecionando estímulos relevantes e inibindo respostas impulsivas), a memória de trabalho (que permite sustentar e manipular informação simultaneamente, essencial para planejamento e formação de conceitos) e a flexibilidade cognitiva (a capacidade de ajustar pensamento e comportamento diante de novidades e mudanças de contexto).
O capítulo descreve o caso clínico de um adolescente com déficit nas funções executivas, com consequências diretas na habilidade de compreender textos, tratado justamente com a estratégia da construção de maquete como recurso terapêutico psicopedagógico. O desempenho desse paciente foi comparado entre a avaliação inicial e uma reavaliação realizada seis meses depois do início do atendimento, e essa comparação, somada à melhora observada no rendimento escolar, atesta com dados concretos a plasticidade cognitiva e comportamental induzida pelo próprio atendimento.
Ver a mesma técnica sendo validada em dois capítulos diferentes, sob fundamentações teóricas distintas (desenvolvimento sináptico num caso, funções executivas no outro), reforça ainda mais a confiança de que se trata de uma ferramenta terapêutica robusta, não uma escolha pontual de um único autor.
Esse tema, aliás, dialoga diretamente com um vídeo recente que gravei sobre TDAH e funções executivas, onde discuto com mais profundidade o que são, de fato, memória de trabalho, controle inibitório e flexibilidade cognitiva na prática clínica.
Por que esse tipo de leitura importa tanto
Esse é exatamente o tipo de enriquecimento que busco, e que defendo como valor essencial da nossa profissão: estudar sempre, com profundidade, e transformar leitura em prática real, não só em conhecimento acumulado e esquecido.
Na Plataforma Mais Psicopedagogia, um dos nossos valores centrais é justamente a profundidade, unida à constância e à autonomia. O Clube do Livro existe exatamente para sustentar esse valor de forma coletiva: ler, junto com outras profissionais, obras que exigem tempo e dedicação, discutir as implicações clínicas de cada capítulo, e conectar tudo à prática real com nossos pacientes. Sozinha, é fácil deixar um livro denso como esse na prateleira, com boas intenções de ler “quando sobrar tempo”. Em grupo, com uma cadência definida e discussão coletiva, a leitura acontece de fato, e o aprendizado se multiplica pelas perspectivas diferentes que cada colega traz.
Para quem esse livro é indicado
Recomendo essa leitura especialmente para psicopedagogas e neuropsicopedagogas que já têm alguma prática clínica e querem aprofundar o raciocínio por trás das intervenções, não só acumular mais técnicas. Também é uma leitura valiosa para quem atua em equipe multidisciplinar, já que a obra une neurologia, pediatria, fonoaudiologia e psicomotricidade num só volume, ajudando a entender melhor a linguagem e o raciocínio de profissionais de áreas próximas com quem frequentemente trabalhamos lado a lado no cuidado do mesmo paciente.
Não é uma leitura rápida, nem deveria ser. É densa, tecnicamente rigorosa, e recompensa quem se dedica a ler com calma, capítulo por capítulo, refletindo sobre como cada tema se conecta com os próprios casos em atendimento.
Perguntas frequentes
Preciso ter formação em neurologia para acompanhar o livro? Não. Apesar de reunir autores de diferentes especialidades médicas, os capítulos são escritos de forma acessível para profissionais da saúde e da educação em geral, incluindo psicopedagogas sem formação médica. Os conceitos neurológicos são sempre explicados antes de serem aplicados à discussão clínica.
Vale a pena ler sozinha, ou só faz sentido em grupo de estudo? Vale a pena das duas formas, mas a experiência em grupo, como fizemos no Clube do Livro da Plataforma MaisPP, amplia muito o aprendizado. Discutir cada capítulo com outras profissionais traz perspectivas e aplicações práticas que a leitura solitária dificilmente alcança sozinha.
O livro é atual, mesmo tendo sido publicado em 2018? Os fundamentos discutidos (neuroplasticidade, funções executivas, técnicas de intervenção baseadas em evidência) continuam absolutamente válidos. Como em qualquer área científica, vale sempre complementar com literatura mais recente sobre tópicos específicos, mas a base teórica da obra segue sólida.
Onde encontrar o livro
Se esse conteúdo despertou seu interesse, você pode encontrar o livro aqui:
Plasticidade Cerebral e Aprendizagem, na Amazon
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Me conta aqui embaixo: você já usou alguma estratégia parecida com a das maquetes nos seus atendimentos? Tenho muita curiosidade de saber como cada profissional adapta essas técnicas para a própria realidade clínica.
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