Criança com a mão sobre uma peça de jogo, prestes a movê-la, enquanto uma psicopedagoga a observa em um consultório.
Estudos e Aprendizagem,  Psicopedagogia e Neuropsicopedagogia

Funções executivas no consultório: 5 ideias para trabalhar com seus pacientes

Imagine uma criança de nove anos sentada à sua frente. Na semana passada, ela explicou as regras de um jogo inteiro sem errar uma palavra. Hoje, assim que o jogo começa, ela move a peça antes de você terminar de falar, esquece o que combinaram dois minutos atrás e, quando a regra muda no meio da partida, fica olhando para o tabuleiro sem saber o que fazer.

A mãe diz a frase que você ouve toda semana: “Ele sabe, mas na hora não consegue.”

Esse “na hora” tem nome. Quase sempre, ele mora nas funções executivas. Neste texto, vou explicar o que elas são, por que pesam tanto na aprendizagem e na vida, o que a pesquisa diz sobre treiná-las e, principalmente, dar 5 ideias práticas para você usar no consultório desde já. No final, tenho uma novidade para contar.

O que são funções executivas

Pense em uma cozinha de restaurante no horário de pico. O chef corta poucos legumes e frita pouca carne. O trabalho dele é coordenar tudo: guardar na cabeça os pedidos que acabaram de chegar, ignorar o barulho e as interrupções, resolver na hora quando falta um ingrediente e decidir a ordem em que cada prato sai. Sem um chef assim, a cozinha tem bons cozinheiros, bons ingredientes e muita confusão.

As funções executivas são o chef do cérebro. Na revisão clássica de Adele Diamond, publicada em 2013 na Annual Review of Psychology, elas aparecem como uma família de processos mentais de cima para baixo, necessários quando precisamos nos concentrar e prestar atenção, e especialmente importantes nas situações em que agir no automático seria insuficiente, pouco sábio ou impossível.

Diamond descreve três funções executivas centrais.

Controle inibitório

É a capacidade de controlar a atenção, o comportamento, os pensamentos ou as emoções para vencer um impulso interno forte ou uma tentação do ambiente. Na prática, é esperar a vez, não responder antes de ouvir a pergunta inteira, ignorar o celular enquanto estuda, segurar a primeira resposta que vem à cabeça para pensar numa melhor. Diamond inclui aqui o autocontrole e o controle de interferência, que é a capacidade de manter o foco apesar do que distrai.

Memória de trabalho

É segurar uma informação na mente e trabalhar com ela. Quando uma criança precisa guardar o enunciado de um problema enquanto faz as contas, ou lembrar o início da frase enquanto escreve o final, é essa função que está em ação.

Flexibilidade cognitiva

É mudar de perspectiva ou de estratégia e se ajustar a novas exigências, regras e prioridades. Quem tem boa flexibilidade percebe que o caminho que estava usando não funciona mais e tenta outro, sem travar. Diamond também relaciona essa função à criatividade.

E as funções de ordem superior

Dessas três nascem as funções executivas de ordem superior: o raciocínio, a resolução de problemas e o planejamento. É por isso que o planejamento de um trabalho escolar depende, lá embaixo, de segurar etapas na cabeça, de não se distrair pelo caminho e de mudar de plano quando algo dá errado.

Infográfico com as três funções executivas centrais e as funções de ordem superior que se constroem a partir delas

Por que elas importam tanto

Se você atende crianças, adolescentes ou adultos com dificuldades de aprendizagem, provavelmente já viu o padrão: o conteúdo está lá, mas o paciente não consegue usá-lo na hora certa. As funções executivas ajudam a explicar por que isso acontece.

Segundo a revisão de Diamond, as funções executivas são mais importantes para a prontidão escolar do que o QI ou as habilidades iniciais de leitura e de matemática. Elas também predizem a competência em matemática e em leitura ao longo de todos os anos escolares. A mesma revisão relaciona funções executivas mais fracas a dificuldades para conseguir e manter um emprego e a problemas de saúde, como obesidade, abuso de substâncias e baixa adesão a tratamentos.

Um dos estudos mais citados nessa linha é o de Terrie Moffitt e colegas, publicado em 2011 na PNAS. Os pesquisadores acompanharam mais de mil crianças nascidas na Nova Zelândia, medindo o autocontrole delas na infância, e voltaram a avaliá-las aos 32 anos. Quanto maior o autocontrole na infância, melhores os resultados na vida adulta em saúde, finanças e envolvimento com a lei. Esses resultados se mantiveram mesmo depois de considerar o QI e a classe social da família. Em um segundo estudo, com cerca de 500 pares de irmãos gêmeos não idênticos, o irmão com menor autocontrole aos 5 anos tinha mais chance de, aos 12, ir mal na escola, começar a fumar e apresentar comportamento antissocial. A comparação entre irmãos torna mais difícil explicar tudo apenas pelo ambiente que eles dividem.

Uma observação importante: autocontrole é um conceito próximo do controle inibitório, que Diamond inclui como parte dele, mas não são idênticos. E, como em todo estudo de acompanhamento, os resultados mostram associações. Elas aparecem de forma consistente, mas não justificam promessas milagrosas.

Há ainda um ponto que aprendemos logo no consultório: aprender não acontece só na escola. A criança precisa das funções executivas para esperar a vez no futebol, seguir uma receita com a avó, atravessar a rua com atenção, conversar sem interromper. O adolescente precisa delas para estudar para uma prova e para lidar com a pressão do grupo. O adulto precisa delas para manter a rotina de trabalho. Quando elas falham, o prejuízo atravessa todos os ambientes.

Por fim, um lembrete de escopo. Dificuldades de funções executivas aparecem em quadros muito diferentes, e na Psicopedagogia e na Neuropsicopedagogia nós avaliamos e levantamos hipóteses. O fechamento diagnóstico cabe ao médico. A intervenção sobre as funções executivas, porém, faz sentido para todos esses pacientes, independentemente do quadro.

O que a pesquisa diz sobre treinar funções executivas

A boa notícia é que elas podem ser desenvolvidas. Em uma revisão publicada na Science em 2011, Adele Diamond e Kathleen Lee examinaram o que funciona em crianças de 4 a 12 anos. A lista de atividades que ajudaram é variada: treino computadorizado, jogos sem computador, atividade aeróbica, artes marciais, ioga, mindfulness e currículos escolares específicos.

Quatro conclusões dessa revisão orientam tudo o que vem a seguir.

Prática repetida e desafio crescente. Todos os programas bem-sucedidos envolviam prática repetida e aumento progressivo da exigência sobre as funções executivas. Uma atividade ótima, feita raramente, produz pouco benefício. E uma atividade que fica sempre no mesmo nível deixa de treinar.

Quem mais precisa, mais ganha. As crianças com funções executivas mais fracas foram as que mais se beneficiaram, incluindo crianças com baixa memória de trabalho e com TDAH.

O treino estreito generaliza pouco. O treino computadorizado de memória de trabalho, o mais estudado, costuma melhorar o que foi treinado, mas os ganhos geralmente não se estendem às funções que não foram praticadas.

O todo conta. Os autores sugerem que o caminho mais eficaz provavelmente combina o treino das funções executivas com o cuidado do desenvolvimento emocional, social e físico. Estresse e solidão prejudicam o funcionamento executivo.

Essas quatro ideias explicam por que as atividades abaixo são jogos variados, com níveis, em um ambiente seguro e com movimento, e por que sempre vale levar a prática para situações da vida real.

5 ideias para trabalhar funções executivas no consultório

Todas as ideias a seguir funcionam com materiais simples e podem ser adaptadas para diferentes idades. Para cada uma, deixo o que fazer, como subir o nível e o que observar.

1. Pare e siga: jogos de sinal e de espera (controle inibitório)

Criança parada no meio de um passo em uma brincadeira de estátua, enquanto a profissional mostra um círculo vermelho

O que fazer. Escolha um jogo de movimento com uma regra de parada. A dança da estátua, o “Simon diz” (só obedeça se ele disser “Simon diz”) e o semáforo (verde anda, vermelho para, amarelo anda devagar) são clássicos que funcionam porque pedem que o paciente segure um impulso. Para escolares maiores e adolescentes, uma versão do teste de Stroop: dizer a cor da tinta e ignorar a palavra escrita. Outra opção é bater palma ao ouvir o nome de um animal, mas só se ele não voar.

Como subir o nível. Aumente a velocidade dos comandos. Acrescente mais regras. Inverta a regra no meio (“agora, quando eu disser verde, você para”). Introduza distratores, como música ou alguém fazendo o gesto errado. Aumente o tempo de espera antes do sinal.

O que observar. Quantas vezes o paciente age quando deveria parar, se ele se corrige sozinho e o que faz depois de um erro: ri, desiste, se irrita, tenta de novo. Combine desde o começo que errar faz parte do jogo e que o erro apenas leva de volta ao começo do nível, sem drama.

2. Segura e transforma: memória de trabalho com manipulação

Menina com a mão no queixo e o olhar para cima, pensando, diante de três objetos de tamanhos diferentes sobre a mesa

O que fazer. Repetir uma sequência exige guardar a informação. Repetir na ordem inversa exige guardar e mexer. É esse segundo passo que aproxima a atividade da memória de trabalho. Fale 3 itens (por exemplo, “pão, leite, maçã”) e peça para o paciente dizer na ordem contrária. Fale objetos e peça para ele organizá-los de cabeça do menor para o maior. Dê instruções em etapas: “pegue o lápis azul, coloque debaixo da caixa e me entregue o papel verde”.

Como subir o nível. Aumente a quantidade de itens. Insira uma pausa com conversa antes da resposta, para criar interferência. Acrescente uma regra de transformação, como somar 2 a cada número que ouvir. Retire gradualmente os apoios visuais.

O que observar. Onde a informação se perde: no começo, no meio ou no fim. E quais estratégias o paciente usa: repetir baixinho, agrupar, criar uma imagem mental. Vale ensinar essas estratégias explicitamente, porque elas fazem parte do ganho.

3. Troca de regra: flexibilidade cognitiva

Mão de um garoto hesitando entre duas pilhas de cartas enquanto a profissional coloca um novo cartão sobre a mesa

O que fazer. Use cartas ou fichas que possam ser classificadas por mais de um critério. Peça ao paciente que separe por cor. Depois de algumas rodadas, mude a regra: “agora, por forma”. Outra versão é pedir sempre “outro jeito” depois de resolver um problema: “ótimo, achou um caminho. Agora, me mostra um segundo”. Para trabalhar mudança de perspectiva, use dramatizações em que o paciente conta a mesma situação do ponto de vista de outra pessoa.

Como subir o nível. No começo, avise antes da troca. Depois, indique a troca com um sinal combinado. Por fim, troque sem aviso e deixe o paciente perceber sozinho que algo mudou. Aumente a quantidade de regras alternando.

O que observar. A perseveração, que é continuar na regra antiga mesmo sabendo que ela mudou, e a reação emocional à mudança. Para quem fica ansioso com trocas, comece com mudanças previsíveis e em um clima leve, porque o estresse atrapalha justamente as funções que queremos treinar. Ensinar uma frase para dizer a si mesmo, como “qual é a regra agora?”, costuma ajudar.

4. Planeje antes de fazer: planejamento e resolução de problemas

Adolescente organiza uma fileira de cartões com etapas desenhadas antes de começar a montar um projeto

O que fazer. Proponha um pequeno projeto: montar um modelo a partir de uma imagem, preparar um lanche simples, desenhar o caminho de um mapa, organizar o próprio material. Antes de começar, o paciente precisa dizer em voz alta, ou colocar em cartões, quais são os passos e quais materiais vai usar. Só depois ele executa. No final, compare o plano com o que realmente aconteceu e converse sobre as diferenças.

Como subir o nível. Aumente o número de etapas. Acrescente restrições, como tempo ou materiais limitados. Introduza um imprevisto, como uma peça que falta, para exercitar o “plano B”. Reduza as dicas do profissional. Peça que o próprio paciente organize a ordem das atividades da sessão com cartões visuais.

O que observar. Se o paciente começa a fazer sem planejar, se consegue sequenciar os passos, se confere o que está fazendo no meio do caminho e se corrige o plano quando algo não sai como esperado. Essa é a ponte mais direta para as tarefas escolares, como planejar um trabalho ou estudar para uma prova.

5. Corpo em jogo: movimento com regra

Criança em equilíbrio sobre uma perna, com os braços abertos, enquanto a profissional acompanha a poucos passos

O que fazer. A revisão de Diamond e Lee encontrou efeitos positivos na atividade aeróbica, nas artes marciais e na ioga. Você não precisa montar uma academia no consultório, mas pode trazer ingredientes desse tipo de prática. Uma corrida em câmera lenta, em que o último a chegar ganha, exige frear o impulso de acelerar. Equilíbrio em uma perna só com respiração lenta pede foco e autorregulação. Sequências de 4 movimentos que o paciente precisa memorizar e repetir juntam memória de trabalho e coordenação. Circuitos com sinais de parada misturam movimento e controle inibitório.

Como subir o nível. Aumente o número de movimentos da sequência, diminua o tempo de execução, adicione uma regra de troca no meio do circuito ou combine duas tarefas ao mesmo tempo.

O que observar. A qualidade do controle (não só a velocidade), a persistência diante da dificuldade e o estado emocional ao longo da atividade. Se o paciente também atende com psicomotricista ou terapeuta ocupacional, vale combinar com esse profissional as atividades que podem ser reforçadas por cada um.

Como montar uma sessão com essas ideias

Você não precisa usar as cinco em todo atendimento. Uma estrutura simples que costuma funcionar:

  1. Acolhimento e combinados. Poucos minutos para conversar e lembrar o que vai acontecer.
  2. Aquecimento com movimento e uma regra. Algo curto, que ative o corpo e a atenção.
  3. Atividade principal no nível certo. Um jogo ou desafio em que o paciente acerta bastante, mas ainda precisa se esforçar. Se acerta tudo, suba o nível. Se erra demais, desça um degrau.
  4. Conversa sobre a estratégia. Pergunte o que ajudou, o que atrapalhou e o que ele pode usar fora dali.
  5. Tarefa de transferência. Uma pequena situação para praticar em casa, na escola ou em outro ambiente, combinada com a família ou com a escola.

O item 5 merece atenção. Como o treino estreito generaliza pouco, o objetivo é que a habilidade apareça onde o paciente vive, e não só dentro da sala de atendimento.

Uma novidade que eu quero te contar

Mesa de trabalho com um calendário de papel de dias riscados e um pacote fechado, amarrado com barbante, à espera de ser aberto.

Há quase duas décadas eu atendo pacientes e ajudo profissionais a terem resultados com os deles. Nesse caminho, uma pergunta se repete em quase toda conversa com colegas: “você tem uma atividade boa para trabalhar isso?”

Por isso, tenho uma novidade para compartilhar: em breve, estarei lançando a minha marca de recursos terapêuticos.

Os materiais foram pensados para quem trabalha no desenvolvimento de habilidades dos pacientes. Isso inclui psicopedagogos e neuropsicopedagogos, e também psicólogos, pedagogos que fazem atendimentos individualizados, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, psicomotricistas e demais profissionais que atuam com esse objetivo.

O primeiro material: controle inibitório

Já posso contar por onde começa: o primeiro material terá foco em controle inibitório.

Escolhi essa habilidade por um motivo simples. Segundo Diamond, o controle inibitório é o que nos permite vencer um impulso interno ou uma tentação do ambiente. Sem ele, a criança responde antes de pensar, se distrai com qualquer estímulo, não espera a vez e tem dificuldade para seguir uma instrução do começo ao fim. Quando essa habilidade falha, aprender se torna uma tarefa muito difícil, e não só na escola.

Lembre que a aprendizagem não está limitada à sala de aula. Ela acontece em casa, no esporte, na rua, nas amizades, nas brincadeiras e em qualquer lugar em que o paciente precise prestar atenção, esperar e escolher o que fazer. Por isso, trabalhar o controle inibitório com qualidade abre portas para tudo o que vem depois.

Fique de olho

Ainda não vou contar todos os detalhes. Mas quero que você saiba que está vindo, e que o primeiro material está sendo preparado com muito cuidado.

Para não perder o aviso, assine a newsletter REPERTORIUM e entre no grupo de WhatsApp. Os links estão no final deste texto. Por lá vou contar as novidades conforme elas forem acontecendo.

Antes de fechar

Salve este texto para consultar na hora de planejar os próximos atendimentos e compartilhe com uma colega que também trabalha com funções executivas. Com as 5 ideias na mão, ela pode começar já.

E me conta nos comentários: qual é a atividade que você mais usa hoje para trabalhar funções executivas no consultório? Quero conhecer o seu repertório.


Referências

  • Diamond, A. (2013). Executive Functions. Annual Review of Psychology, 64, 135-168. Texto
  • Diamond, A., Lee, K. (2011). Interventions shown to aid executive function development in children 4 to 12 years old. Science. PubMed
  • Moffitt, T. E. et al. (2011). A gradient of childhood self-control predicts health, wealth, and public safety. PNAS. Texto | Resumo do estudo (Duke)

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