Carreira e Desenvolvimento Profissional,  Trabalho e Propósito

Será que a Psicopedagogia é para mim? O que fazer quando a motivação some

“Como saber se a Psicopedagogia é para mim? Estou pensando em desistir. Estou tão desmotivada…” Frequentemente recebo perguntas assim, e frequentemente me esforço para responder de um jeito que realmente ajude, não só com uma frase de efeito. Dessa vez, percebi que a melhor forma de responder de verdade era escrever com calma, com profundidade, tudo o que eu penso sobre isso.

Não vou te dar uma resposta rasa, tipo “se você ama o que faz, você vai saber”. Quero ir mais a fundo, porque essa pergunta esconde uma confusão comum, e desfazer essa confusão pode te ajudar muito mais do que qualquer teste de vocação.

Essa pergunta, aliás, não é exclusiva de quem está insegura sobre a Psicopedagogia especificamente. É uma das dúvidas mais universais que existem sobre trabalho e carreira, atravessando praticamente todas as profissões, em todos os países, em todas as épocas. O que muda, de pessoa para pessoa, não é se a dúvida vai surgir algum dia, mas como cada uma lida com ela quando ela chega.

Todo trabalho é trabalho

Antes de qualquer reflexão sobre propósito, preciso dizer uma coisa que parece óbvia, mas que a gente esquece com facilidade: todo trabalho é trabalho. Todo trabalho tem partes que gostamos mais, e partes que gostamos menos, e as duas precisam ser feitas.

Na Psicopedagogia, isso aparece de forma bem concreta. Existe a rotina de estudo constante, que exige disciplina mesmo quando você já está cansada de ler artigo, de revisar teoria, de se manter atualizada. Existem os atendimentos em si, que exigem presença total, mesmo em dias que você não está com energia de sobra. E existem os momentos emocionalmente densos, como uma devolutiva difícil, em que você precisa ter jogo de cintura para acolher a reação de uma família, mesmo carregando seu próprio cansaço, ou até questões pessoais que nada têm a ver com aquele atendimento.

Nenhuma dessas partes vai, sempre, parecer prazerosa. Isso não é sinal de que você escolheu a profissão errada. É sinal de que você escolheu um trabalho de verdade, com peso real, como qualquer outro.

A diferença entre cansaço do trabalho e desalinhamento de propósito

Então, se sentir cansada às vezes, ou até desmotivada em algumas semanas, não é o sinal de alerta que parece ser. O que realmente importa é uma pergunta diferente: quando você olha para o conjunto do seu trabalho, você vê sentido nele?

livro Em Busca de Sentido, de Viktor Frankl
livro Em Busca de Sentido, de Viktor Frankl

Essa distinção está no centro da obra de Viktor Frankl, psiquiatra austríaco que viveu a experiência devastadora dos campos de concentração nazistas, e que, a partir dela, desenvolveu a logoterapia, uma abordagem terapêutica centrada na busca de sentido como motor central da vida humana. No livro Em Busca de Sentido, Frankl descreve como, mesmo nas condições mais desumanas imagináveis, encontrar um propósito, algo ou alguém pelo qual seguir vivendo, era o que sustentava a capacidade de continuar. Você pode conhecer o livro aqui.

A lição que trago disso para nossa profissão é direta: sentido não é ausência de dificuldade. É a razão que sustenta você atravessando a dificuldade. Quando você está dentro do seu propósito, da forma autêntica com que contribui para o mundo, mesmo os dias difíceis carregam um significado que os dias sem propósito nenhum jamais teriam.

O que a busca pelo Ikigai pode te ensinar

Existe um conceito japonês, chamado Ikigai, que também ajuda a pensar nessa questão de forma mais estruturada. O neurocientista Ken Mogi, em seu livro sobre o tema, descreve o Ikigai como a razão pela qual você se levanta da cama todas as manhãs, algo associado, inclusive, à longevidade excepcional observada em certas comunidades japonesas, onde as pessoas seguem exercendo, ao longo da vida, uma atividade que combina simultaneamente quatro elementos: o que você ama fazer, o que o mundo precisa, aquilo em que você é boa, e o que permite seu sustento financeiro.

Quando uma atividade reúne essas quatro dimensões ao mesmo tempo, ela deixa de ser só “um emprego” e se transforma em algo mais profundo. Vale a pena, se você está nessa reflexão, se perguntar honestamente: a Psicopedagogia atende, para você, essas quatro dimensões, ou falta alguma delas de forma persistente?

Vale um alerta importante aqui, também: a busca pelo próprio propósito pode, ela mesma, virar uma armadilha. Existe uma abordagem terapêutica japonesa, desenvolvida pelo psiquiatra Shoma Morita, que argumenta que ficar analisando excessivamente o próprio sentimento de vazio ou desmotivação, tentando “resolver” essa sensação antes de agir, é exatamente o que mantém a pessoa presa nesse estado. Segundo essa perspectiva, motivação e paixão pelo trabalho geralmente vêm depois da prática consistente, não antes dela. Você não espera se sentir inspirada para então agir. Você age, mesmo sem inspiração, e a competência que se desenvolve com a prática é o que gera, depois, a satisfação genuína.

Isso tem uma implicação prática importante: se você está esperando sentir uma paixão constante e inabalável pela Psicopedagogia antes de continuar investindo nela, pode estar invertendo a ordem real de como esse sentimento se constrói.

Essa abordagem propõe, inclusive, um pequeno exercício prático para os momentos de paralisia diante da falta de motivação: responder a quatro perguntas simples. Quais são os fatos concretos da situação agora, sem dramatização? Que sentimento incômodo você está tentando eliminar antes de agir? O que a realidade concretamente exige de você nesse momento? E qual é a menor ação física possível que você pode tomar agora mesmo, independentemente de como está se sentindo?

Aplicando isso à nossa realidade: imagine que você está sem nenhuma vontade de preparar a sessão de amanhã. Os fatos são: você tem um atendimento agendado, com um objetivo terapêutico já definido para esse paciente. O sentimento que você quer evitar é o cansaço, ou talvez o tédio da rotina. O que a situação exige é revisar o plano da sessão. E a menor ação possível é abrir o material daquele paciente específico e ler a última anotação que você fez. Só isso. Não é preciso sentir entusiasmo para dar esse primeiro passo mínimo, e, na maioria das vezes, uma vez que você começa, o restante da tarefa flui com muito mais naturalidade do que a resistência inicial sugeria.

os quatro elementos do conceito japonês de Ikigai

Onde entram os nossos valores nessa reflexão

Os três valores que sustentam tudo o que ensino na Plataforma Mais Psicopedagogia, profundidade, autonomia e constância, se conectam diretamente com essa reflexão sobre propósito.

Profundidade é o que sustenta a rotina de estudo constante, mesmo quando ela não parece empolgante no dia a dia. É estudar não porque cada sessão de leitura é excitante, mas porque você entende o valor maior que esse hábito constrói ao longo do tempo.

Autonomia é o que te permite atravessar situações emocionalmente densas, como uma devolutiva difícil, com discernimento próprio, mesmo sem sentir, naquele momento específico, nenhuma inspiração ou entusiasmo. É agir de forma competente e presente, independentemente do estado emocional do dia.

Constância é, talvez, o valor mais diretamente relacionado à reflexão sobre a terapia de Morita que trouxe acima: continuar praticando, atendendo, estudando, mesmo em dias sem motivação nenhuma, porque é exatamente essa prática sustentada que constrói, com o tempo, a competência e a satisfação genuína que você busca.

Perguntas para te ajudar a refletir

Se você ainda está insegura sobre se a Psicopedagogia é o caminho certo para você, algumas perguntas ajudam a organizar essa reflexão, em vez de ficar só na sensação vaga de desmotivação:

Quando você ajuda alguém a superar uma dificuldade real de aprendizagem, mesmo que o processo tenha sido cansativo, você sente que aquilo valeu a pena? Se a resposta é sim, de forma consistente, isso é um sinal forte de propósito alinhado, mesmo que o dia a dia tenha partes desgastantes.

A desmotivação é constante e generalizada, ou pontual e ligada a um período específico? Cansaço acumulado, sobrecarga temporária, ou um momento pessoal difícil, podem gerar desmotivação passageira, que não necessariamente indica desalinhamento de carreira.

Você está esperando sentir inspiração antes de agir, ou está evitando agir por causa da falta dela? Se a resposta for a segunda, vale experimentar inverter a ordem: aja primeiro, mesmo sem motivação, e observe se a satisfação aparece depois, como consequência da prática.

Ao imaginar sua rotina sem a Psicopedagogia, você sente alívio genuíno, ou perda? Essa pergunta, feita com honestidade, costuma revelar muito sobre alinhamento real de propósito.

O sentido nasce de ajudar, não só de olhar para dentro

Um ponto valioso dessa mesma linha de pensamento japonesa é a ideia de que buscar propósito olhando exclusivamente para dentro de si mesma, para os próprios sentimentos e preferências, tende a gerar mais confusão e solidão do que clareza. O sentido, segundo essa perspectiva, é fundamentalmente relacional: nasce quando você conecta sua capacidade com a necessidade real de outra pessoa.

Aplicado à nossa profissão, isso sugere uma pergunta mais produtiva do que “eu amo cada minuto do meu trabalho?”. A pergunta melhor é: “quem está sendo ajudado pelo meu esforço, e esse esforço está genuinamente melhorando a vida dessa pessoa?”. Quando você desloca o foco da própria experiência interna para o impacto real que gera na vida de pacientes e famílias, a reflexão sobre propósito tende a ficar mais concreta, e menos presa num loop de autoanálise sem resposta clara.

Perguntas frequentes

É normal ter dias, ou até semanas, de desmotivação numa profissão que amo? Completamente normal. Motivação não é um estado constante em nenhuma carreira, nem nas mais alinhadas com o propósito de alguém. O que diferencia desmotivação passageira de desalinhamento real é a direção geral, ao longo do tempo, não o estado de um único dia.

Devo esperar sentir clareza total antes de continuar investindo na carreira? Não. Como discutido acima, clareza e motivação costumam vir depois da prática consistente, não antes dela. Esperar clareza total antes de agir é, muitas vezes, a própria causa da paralisia.

E se, depois de toda essa reflexão, eu perceber que realmente não é o meu caminho? Essa também é uma resposta válida e importante. Reconhecer isso com honestidade, depois de uma reflexão genuína (não apenas num momento pontual de cansaço), é mais saudável do que continuar numa carreira sem sentido real por medo de mudar de direção.

Se a resposta ainda for incerta

Se depois dessas reflexões você ainda não tem clareza, saiba que isso também é normal, e não precisa ser resolvido de uma vez. Desenvolver segurança e sentido na profissão é um processo, não um evento único de clareza absoluta, algo que também discuti no texto sobre insegurança na Psicopedagogia.

O que sustenta essa jornada, de forma prática e estruturada, é exatamente o que ensino dentro da Plataforma Mais Psicopedagogia: profundidade real de conhecimento, autonomia para tomar decisões clínicas seguras, e constância para atravessar os períodos de menor motivação sem abandonar o caminho.

Conheça a Plataforma Mais Psicopedagogia

Me conta aqui embaixo: você já passou por essa dúvida sobre estar na profissão certa? O que te ajudou a encontrar mais clareza?

Se você conhece alguma colega que está se perguntando isso agora, compartilha esse texto com ela.

Continue essa conversa

Receba a newsletter Repertorium por e-mail: reflexões como essa, toda semana. https://tatianecastro.substack.com/

Masterclass Psicopedagoga de Elite https://maispp.tatianecastro.com/masterclass-blog

Supervisão Clínica Individual https://forms.gle/mGKauF3nscCnKnhX8

Consultoria Estratégica para Negócios de Aprendizagem https://forms.gle/e11LMTBWJy7zkSYy8

Grupo de WhatsApp https://meugrupo.vip/c/32871

Canal no YouTube https://www.youtube.com/@TatianeCastroBlog

 

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *